DONA MILITANA, A ROMANCEIRA DO BRASIL
Dona Militana, a Romanceira do BRASIL
“Lá nos Barreiros onde eu nasci,
Em São Gonçalo onde eu me criei,
Eu vou voltar pra meu sítio Oiteiro,
Adeus São Gonçalo, adeus Rio de Janeiro, São Paulo, adeus.”
(versos cantados por Dona Militana numa apresentação no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, durante participação especial no espetáculo "Lunário Perpétuo", ao lado do brincante pernambucano Antônio Nóbrega).
Matriarca de uma grande família, administrava a vida e uma vila de casas de taipa, pertencentes a seus filhos, netos e bisnetos que moravam no entorno de sua casa de tijolo humilde, visitada por artistas e pesquisadores importantes. Aos 79 anos de idade, Dona Militana morou com a filha Benedita no alto do Santa Terezinha, comunidade de São Gonçalo do Amarante-RN. Seu ambiente foi objeto de ensaio fotográfico, documentário cinematografico, ponto indispensável a visita da imprensa em geral, que guardam lembranças especial de Dona Militana a romanceira do Brasil.
Dona Militana cantou romances. Um estilo popular que foi herdado da Europa Medieval, mais precisamente da cultura ibérica, carregando em seus enredos histórias trágicas sobre príncipes e plebeus. A romanceira lembrou de músicas que poderiam ser perdidas com o tempo e, com elas, uma fatia da cultura brasileira, nordestina e potiguar.
Dona Militana só começou a cantar os romances na década de 1990, depois que o pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel a descobriu. De acordo com o folclorista, Dona Militana é importantíssima para o folclore brasileiro. “Ela cantou um romance religioso pra mim, chamado O Milagre do Trigo, esse romance não existe no Brasil nem em Portugal, só existe versos dele na Espanha. O que me intriga é como isso veio parar na cabeça dela. Ela é uma pessoa fabulosa em matéria de cultura tradicional do romanceio. A mulher é fora de série. Atualmente, ela é a maior romanceira do Brasil” afirmou Deífilo Gurgel.
Conhecedora de dezenas de peças raras dos romanceiros ibéricos e brasileiros, Dona Militana aprendeu os cantos através de seu pai, Atanásio Salustino do Nascimento, conhecida figura do folclore de São Gonçalo do Amarante.
Dona Militana foi destaque em 1992, na imprensa nacional quando esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro cantando durante o lançamento do CD triplo "Cantares", do Projeto Nação Potiguar, e ainda participando de outros eventos. Ela fez sucesso entre pesquisadores e intelectuais, que viram nela uma das últimas representantes vivas dessa tradição.
Críticos e jornalistas de grandes jornais brasileiros se renderam aos encantos e mistérios da voz de Dona Militana. O jornalista Mauro Dias, de O Estado de São Paulo assim a descreveu: "Canta romances. Histórias centenárias, sobre reis e princesas, duques e plebéias; histórias terríveis, romances de amor e morte, de ciúmes e vinganças mantidas, por algum motivo, a ser descoberto, num formato muito próximo ao da origem, os cantadores medievais da península ibérica."
Romances, xácaras, modinhas, toadas de boi, coco, romarias, desafios, cancela, parcela, moirão, aboios, jornadas de chegança e fandango constituem o universo imaginário de Dona Militana. Essa diversificação de gêneros forneceu o ambiente propício para que a romanceira contasse estórias de reis e princesas, de duques e condes, de cangaceiros, escravos, súditos, santos, coronéis e mitos, que compõem o legado herdado pela intérprete de seus antepassados, que a memória privilegiada fez preservar, permitindo o justo registro para a posteridade.
Visivelmente abatida pela idade e com sérias crises de pressão alta, Dona Militana residiu com uma de suas sete filhas, Benedita e alguns netos, numa casa simples e sem conforto, na comunidade de Santa Terezinha, São Gonçalo do Amarante-RN
Apesar de ter uma grande consideração por algumas pessoas da área cultural, ela , Dona Militana sentiu-se esquecida pelas mesmas.
Dona Militana também não recebeu nenhum centavo dos royalties ou direitos autorais com a venda do CD Cantares, desenvolvido pela Fundação Hélio Galvão, dentro do projeto Nação Potiguar. A romanceira dizia que recebeu apenas R$ 2 mil. Não há nenhum CD em casa para que ela podesse vender ou mostrar aos seus visitantes.
Durante o Auto de Natal, ao lado da cantora Elba Ramalho e do ator global Lázaro Ramos, Dona Militana fez uma apresentação especial na Capital do Rio Grande do Norte.
Comovidos pela situação da romanceira, um grupo de poetas da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte foi fazer uma visita à Dona Militana. Segundo a poeta Cíntia Gushiken, Dona Militana foi abandonada por muita gente. Pelas nossas autoridades. Só em 2009, foi que a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante reconheceu o seu verdadeiro valor e lhe concedeu uma penssão por ela ser um dos mais importantes patrimônios culturais. Mas já era muito tarde; deveriam colocar assistência médica, jurídica e habitacional para ela. DONA MILITANA A ROMANCEIRA DO BRASIL, faleceu aos 85 anos de idade por volta das 17h30, quando estava em sua residência, no bairro Santa Terezinha, localizado em São Gonçalo do Amarante.
Agora sem Dona Militana, todos nós, artistas, jornalistas, advogados, escritores, médicos, políticos, profissionais liberal, enfim, toda sociedade civil entedemos o quanto era e continuará sendo importante a obra de DONA MILITANA, A MAIOR ROMANCEIRA QUE O BRASIL PODE CONHECER.
Texto: Moacir Farias/16/12/2010.
Os que fazem a cultura de SGA ou que participam da vida do município, os pesquisadores de fato tiveram grande perda. O que nos conforma é a imortalidade de sua obra, que continuará para sempre na história do nosso povo. Parabéns pelo blog.
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